Crescimento sustentável é discutido há 35 anos      
         
       
   
         

Desde 1972, ou seja, há 35 anos, a preocupação com o crescimento econômico sustentável vem sendo discutido por especialistas no assunto e autoridades políticas de todo o mundo. Mas somente este ano, com os constantes alertas sobre a temperatura da Terra chegar a índices insuportáveis se o efeito estufa não for controlado, é que a degradação ambiental vem sendo vista com mais atenção.
Cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), afirmam: “o aquecimento global é um fenômeno indiscutível, e o responsável por isto é o homem”.

Mas o que este aquecimento pode causar?

Com a temperatura média da Terra subindo ao longo do século, poderemos sentir efeitos colaterais como, o aumento de casos de doenças no mundo, biodiversidade ameaçada com extinção de um terço das espécies, milhões de pessoas ficarão vulneráveis a enchentes, ondas de calor podem matar milhares por ano, a fome e a sede podem atingir 1 bilhão de pessoas, dentre outros. Este é o cenário mais sombrio projetado pelo grupo em quase 20 anos de atividade.

As populações mais pobres, já assoladas pelo subdesenvolvimento sofrerão mais, pois a baixa capacidade econômica de adaptação se soma à força das alterações climáticas.

Num relatório de 1,4 mil páginas feito pelos cientistas do IPCC em abril deste ano, foram analisados dados coletados em cerca de 80 mil séries de estatísticas, componentes de 577 estudos realizados entre 1970 e 2004. O documento classifica como “muito improvável” que as alterações climáticas sejam devidas exclusivamente a mudanças naturais da temperatura ou dos sistemas, seguindo a tendência de afastar questionamentos dos céticos do aquecimento. Os números mais impressionantes, 1 bilhão de pessoas expostas à severa escassez de água e 600 milhões sujeitas à fome em razão de secas à degradação dos ambientes e à salinização do solo, forma retirados da síntese do relatório voltada aos formadores de política pública.

O que estamos fazendo

Para um país com 180 milhões de habitantes como o Brasil, a movimentação quanto ao crescimento econômico ainda é tímida. “Em nosso país ainda prevalece à lei de Gerson, ex-jogador de futebol, de levar vantagem em tudo. Até o momento pouco se fez para um crescimento econômico sustentável”, comenta Paulo Roberto Saponga de Oliveira, secretário de Recursos Hídricos e Meio Ambiente de Itapeva (SP), diretor da UVESP e diretor da Fundação Planeta Terra.
Segundo Saponga, o crescimento econômico traduz-se em qualidade de vida de sua população, e não se vê isto acontecer. “É importante considerar o crescimento não somente pela sua quantidade, mas pela sua qualidade. Deste modo, no Brasil apenas verifica-se o quanto à economia cresceu, mas não se observa como foi esse crescimento e conseqüentemente qual o impacto distributivo e destrutivo do mesmo”, relata.

Um incentivo do Estado, para que os municípios se movimentem quanto à questão ambiental é o Programa Município Verde, criado no mês passado. As cidades que cumprirem dez diretrizes estabelecidas até março do ano que vem receberão a certificação de município verde e ficam credenciadas para obter recursos com prioridade. 393 cidades do estado estão participando.

As 10 diretrizes do protocolo são: implantar a coleta e o tratamento de esgotos domésticos; promover coleta seletiva e reciclagem de lixo; participar do programa estadual de recuperação de matas ciliares; criar programa de arborização urbana e manutenção de áreas verdes; implantar programa de educação ambiental na rede municipal de ensino; definir programa para redução do uso da madeira vinda da Amazônia na construção civil; implantar programa contra desperdício de água; auxiliar o governo no controle da poluição atmosférica; constituir estrutura executiva responsável pela política local de meio ambiente e criar o conselho municipal de meio ambiente (cmma).

Segundo o secretário de Estado do Meio Ambiente, Francisco Graziano Neto, 182 municípios não dispõem de nenhum sistema de coleta e tratamento de esgoto, 228 tratam somente 20% do esgoto gerado e 308 tratam mais de 80% dos esgotos.

Na questão de resíduos sólidos, 143 municípios tratam o lixo de forma inadequada e 181 dispõem de sistemas adequados e ainda realizam coleta seletiva de resíduos. Graziano apontou também o problema da cobertura vegetal no estado, que precisa recuperar 1,7 milhão de hectares de matas ciliares.

Helena Carrascosa Vonglehn, coordenadora da Coordenadoria de Licenciamento Ambiental e Proteção dos Recursos Naturais, comenta que o governo do Estado, também está unificando os órgãos de licenciamento ambiental: Cetesb, Departamento Estadual de Proteção de Recursos Naturais (DEPRN), Departamento de Avaliação de Impacto Ambiental (DAIA), Departamento de Uso do Solo Metropolitano para formar somente uma instituição. “Com isso o processamento do licenciamento ambiental será mais rápido e melhor”.

Eventos extremos no Brasil

Ironicamente ao mesmo tempo em que a civilização alcançou um altíssimo grau de desenvolvimento tecnológico, vê-se diante de novo desafio: conseguir reduzir o consumo de fontes naturais, encontrar outras que poluam menos o ambiente, ou ainda adotar formas de reciclar ou reutilizar os recursos naturais. “Esse é o único caminho para que as futuras gerações encontrem um lugar mais adequado para viver”, afirma Paulo Roberto Saponga de Oliveira.

A degradação dos recursos naturais está refletiva num aspecto que ganha cada vez mais evidências e eco no mundo: o da mudança climática, com uma série de eventos desagradáveis, que já passaram a se repetir de forma preocupante, como enchentes, secas, dentre outros.

O furacão Catarina, o primeiro na história do Atlântico Sul, foi um episódio inédito que marcou nosso país em março de 2004 e é fonte de estudo para pesquisadores e técnicos em meteorologia até os dias atuais. Os pesquisadores acreditam que o surgimento do furacão Catarina possa estar relacionado a mudanças e anomalias climáticas, devido à verificação do aumento da temperatura da superfície do mar na costa da região sul do Brasil. E este parece não ser o único evento extremo que o Brasil vai presenciar, acreditam estudiosos do assunto. “Existe a possibilidade do fenômeno se repetir em algum momento no Atlântico Sul”, diz Saponga.

Os cientistas esperam que, na ausência de políticas eficazes para reduzir a poluição por “gases estufa”, o aumento da temperatura global média fique entre 1°C e 6°C em torno do ano 2080. A expectativa é de que as mudanças no clima sejam sérias, com tempestades mais violentas, secas mais pronunciadas e mais problemas com a erosão do solo nas áreas costeiras, em função da elevação do nível das águas dos oceanos. Na extremidade dramática das previsões, o mundo poderia se deparar com conseqüências repentinas, catastróficas e irreversíveis. “O estado atual do nosso clima e a previsão para o futuro nos colocará diante de tempos difíceis, marcados por migrações de caráter ambiental com sofrimento humano sem precedentes, em especial, para os nossos filhos e netos”, comenta Saponga.

Há consenso entre os cientistas de que a seca de 2005 na Amazônia estava relacionada com o aquecimento da superfície na área tropical do Atlântico do Norte. As previsões mais alarmistas para a Amazônia indicam que a combinação de desmatamento, incêndios, secas, mudanças no uso da terra (como plantação de monoculturas) e aquecimento global vão empurrar a Amazônia para o limite de um ciclo de destruição. As chances de ocorrerem períodos de intensa seca na região da Amazônia podem aumentar dos atuais 5% (uma forte estiagem a cada 20 anos) para 50% em 2030 e até 90% em 2100, informam cientistas do Hadley Centre.

Soluções

As taxas de consumo indicam: quanto melhor o padrão de vida, maior a demanda por energia. Países como o Brasil precisam multiplicar pelo menos por três a taxa de consumo per capita para proporcionar a seus habitantes a qualidade de vida dos europeus. Ou seja, não há desenvolvimento social sem maior produção de energia. E isso tem um alto custo para o meio ambiente.

Por isso países como Estados Unidos, China, Rússia e Arábia Saudita, produtores de petróleo, gás e em forte desenvolvimento econômico, portanto grandes emissores de CO2, principal causador do efeito estuda são os principais responsáveis pelo aquecimento global. Em menores proporções estão Canadá, México, todos os países da Europa, Japão e Austrália.

Para estabilizar a emissão dos gases causadores do efeito estufa e conseqüentemente amenizar a crise climática, é preciso investir aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial até 2030. Ou seja, custaria cerca de 0,12% do PIB do planeta a cada ano até lá.

Essa fração seria suficiente para estabilizar a concentração dos gases estufa. Se ela ficar entre 445 ppm e 490 ppm, de acordo com os cientistas, o aumento na temperatura média do planeta seria de 2,0C a 2,4C até o final do século, em comparação à registrada no período pré-industrial, indicador aceitável, de acordo com os especialistas, para evitar grandes tragédias. Para isso, se´ra preciso reduzir gradualmente as emissões de CO2 a partir de 2015, que seria o ano de pico das emissões, pelo menos para 50 a 85% dos níveis do ano 2000 a 2050.

Porque a demora em iniciativas concretas no Brasil, mesmo que se intitule que o principal é que países desenvolvidos diminuam a emissão de CO2?

De acordo com Saponga, isso também tem a ver com a situação cultural do país. Os poderes constituídos refletem um pouco essa cultura brasileira que não é muito incisiva na sociedade. “Essa é uma demora amplamente aceita e compartilhada entre vários estados brasileiros. É muito mais fácil e lucrativo não tomar atitudes em relação a emissões de gases que provocam o aquecimento global”.

Hoje temos fatos concretos - sobre as causas e também sobre como consertar a situação – para que se possa começar a programar as soluções imediatas para reduzir o aquecimento global, visando ações para que o ser humano, causador do fenômeno, reduza a queima de combustível fóssil (petróleo, carvão e gás natural) e pare definitivamente com as devastações das florestas. “O caminho é mostrar casos concretos de como os estados e municípios podem criar e fiscalizar leis, combater e reduzir a emissões de CO², dentro de sua jurisdição”, comenta Saponga.

Como podemos ajudar a diminuir os efeitos do aquecimento global

A utilização da regra dos três Rs é a mais perpetuada: Reduzir; Reutilizar e Reciclar. “Isto só será possível se houver um programa de educação da população”, acredita Saponga.

Cada um de nós é responsável pela emissão de uma parcela de CO2 para a atmosfera, pois consumimos produtos industrializados e usamos veículos motorizados para nos locomover. Portanto, para contribuir menos para o efeito estufa basta reduzir o consumo, utilizando objetos feitos com recicláveis, não aceitando sacolas plásticas, escrevendo dos dois lados do papel, consumir bebidas que venham em recipientes retornáveis, evite comprar alimentos com muita embalagem, sempre que tomar água, café refrigerante não utilizar copos descartáveis, não desperdice água, economize energia, ande mais a pé e de bicicleta, recicle matérias secos papel, latas, vidros, e plásticos, cobre ações das autoridades.

Defender o meio ambiente no Brasil ou em qualquer outro lugar da terra não era uma tarefa toda desprovida de riscos e chacotas por parte da sociedade. Hoje o total domínio dos centros de informação, difusão de idéias, escolas, jornais, ambiente cultural, mercado editorial, enfim, é que estão imbuídos, na tarefa de moldar e padronizar o pensamento da sociedade de acordo com as necessidades ambientais do planeta. O milagre resultou da ocorrência de uma série de catástrofe natural, que vem assolando o planeta. As informações em massa passada a população produziram um grupo maior de ambientalistas, marcados de singular independência do poderio econômico em que vivia.

“O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer” Albert Einstein

Texto
www.uvesp.com.br
Fotografia
Secretaria Municipal do Meio Ambiente