SANEAMENTO E TECNOLOGIA

A disponibilidade de água sempre foi crucial para as populações humanas. Não é por outra razão que desde o período Neolítico as aldeias, cidades e civilizações sempre se estabeleceram perto de rios e lagos. Os egípcios tornaram-se exímios construtores de canais, para levar a água do Nilo para o interior dos vales e manter a produção agrícola, necessária à sobrevivência da população. Dada a necessidade de conjugar a agricultura e a construção de canais em um mesmo espaço limitado, os egípcios criaram e desenvolveram a agrimensura e a geometria. Na Itália e em outras partes de seu império, os romanos usaram uma sofisticada técnica na construção dos aquedutos, capazes de trazer água de 50 ou 80 quilômetros de distância, em volumes suficientes para abastecer cidades populosas como Roma, Pompéia, Antioquia e Éfeso. O conhecimento adquirido na construção dos sistemas de água e esgoto também capacitou os arquitetos romanos a utilizarem esta tecnologia em outras edificações, como o Coliseu e o Capitólio, grandes obras que exigiram o domínio de elaboradas tecnologias de construção. Assim, a necessidade de assegurar o abastecimento de água e o saneamento, fez com que os povos desenvolvessem tecnologias novas, posteriormente aplicadas para outros fins.

Nestes milhares de anos que nos separam do império egípcio e romano, nossa civilização desenvolveu bastante a tecnologia para a gestão dos recursos hídricos. Principalmente a partir da segunda metade do século XIX, quando se desenvolveu a mecânica, a hidráulica, a engenharia de construção e a química, as cidades iniciaram a construção de sistemas de captação, tratamento e distribuição de água e coleta e tratamento de esgotos. Estas tecnologias são hoje plenamente conhecidas e disponíveis. O fato de que cerca de 2,9 bilhões de pessoas em todo o mundo ainda vivem em áreas sem coleta ou tratamento de esgotos deve-se à falta de recursos financeiros e vontade política de atender estas populações. Exemplo desta situação é o Brasil, onde cerca de 75% do esgoto não é tratado, poluindo rios, praias, lagos e fontes de água. Com este índice não chegaremos nem a atingir as Metas do Milênio, acordadas por todos os países junto à ONU, e que prevêem, entre outras coisas, que até 2015 se reduza em 50% o número de pessoas sem acesso ao saneamento básico.

As obras para a instalação de redes de coleta e estações de tratamento de esgoto costumam ser classificadas como muito caras. Com isso, prefeituras e Estados dizem não possuir recursos financeiros suficientes para alocar em tais obras, apesar de existirem vários exemplos de municípios que conseguiram encontrar uma solução para o problema com recursos próprios. Muitas das companhias estaduais de saneamento, que tem a concessão dos municípios para fornecer serviços de tratamento de água e esgoto, não cumprem com sua parte do acordo. Enquanto isso, em regiões pobres e sem assistência, as crianças continuam morrendo por causa de infecções e viroses transmitidas por água contaminada. Nesta situação, quem sai prejudicado é o cidadão, exatamente aquele para o qual a estrutura do Estado deveria funcionar.

Assim, me pergunto se nestes assuntos os antigos não tinham uma mentalidade muito mais avançada do que muitas sociedades, países e administradores da atualidade.

Ricardo Rose
Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade
Leiter der Abteilung Umwelt und Nachhaltigkeit
Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha
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