FÉRIAS, FILAS, PRAIA E ESGOTO

Durante as férias de verão, milhões de turistas se deslocam para o litoral de São Paulo, esperando ter alguns dias de lazer e poder esquecer dos congestionamentos, dos juros do cartão, dos assaltos e das frequentes enchentes paulistanas. Aliás, diante do imobilismo das autoridades, alguns já apelidaram São Paulo de “a Veneza estropiada do planalto”. Mas o veranista é antes de tudo um forte e não desiste nunca. Carro abarrotado de coisas – já que o comércio do litoral exagera nos preços durante as férias – e oito horas de congestionamento depois, o estafado viajante chega ao seu destino final: a praia. Litoral norte, Baixada Santista ou litoral sul; são cerca de 500 quilômetros de mar e quatorze cidades, de Cananéia até Ubatuba.

Tudo corre às mil maravilhas, salvo a falta de água no Ano Novo e o congestionamento na cidade. Até que o filho, a filha, o cunhado e os vizinhos começam a passar mal: diarréia, vômitos e febre. Passa-se uma tarde, uma noite e na manhã seguinte o mal estar continua. No Pronto-Socorro Municipal, sujo, desorganizado e precário, o remédio já havia acabado; na farmácia apenas algumas caixas. O pior é que ninguém consegue identificar a causa da virose ou infecção. Na dúvida, sem assistência correta, a solução é voltar pra São Paulo e utilizar o convênio – que também não é bom, mas que remédio...

Fatos como estes ocorreram com milhares de pessoas que planejavam passar suas férias no litoral. As causas da epidemia de diarréia e vômitos ainda não foram encontradas. No entanto, a agência ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), anunciou que fará um estudo sobre os microorganismos que vivem nas águas das praias, tentando detectar se existe contaminação com esgotos domésticos. Neste ambiente pode-se contrair cerca de 250 doenças transmitidas por água e alimentos, causadas por vírus, bactérias, parasitas ou toxinas.

Vale lembrar que os índices de tratamento de esgoto nas cidades do litoral paulista ainda são muito baixos. Já antes do início das férias, uma em cada três praias da Baixada Santista e do litoral norte foi considerada imprópria para o banho pela CETESB. A enorme afluência de turistas certamente piorou ainda mais esta situação. O fato, portanto, inspira atenção e requer mais informação para população local e para os veranistas. Segundo dados publicados pela imprensa, na Baixada Santista 2.900 litros por segundo (l/s) de esgotos vão para o meio ambiente (lençol freático, rios e mar) e apenas 1.078 l/s são coletados. No litoral norte a proporção também é ruim: 454 l/s não tratados, contra 252 l/s coletados. A SABESP, através de seu programa Onda Limpa, já vem investindo na ampliação da rede de esgoto da região e garante que até 2010 a coleta deverá alcançar 36%, chegando a 85% até 2015.

Este é apenas mais um capítulo da longa história do turismo predatório, que vitimou grande parte do litoral brasileiro deste a década de 1960. Administrações municipais incompetentes, sem comprometimento com a população que vive nas cidades, beneficiando apenas um reduzido grupo de cidadãos; as pequenas oligarquias que costumam dominar política e economicamente estas cidades e que diretamente se aproveitam deste turismo sazonal.

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