Chega o verão
e novamente a região metropolitana de São Paulo,
entre outras regiões do País, é castigada
por fortíssimas chuvas. Na primeira semana de dezembro,
durante dois dias, caiu a metade de toda a chuva prevista para
o mês. Como sempre, a cidade de São Paulo transformou-se
em um caos, os cidadãos abandonados à própria
sorte; congestionamentos, ruas e casas inundadas, transporte público
paralisado, pessoas demorando quatro ou cinco horas para voltarem
para casa, até mortes ocorreram. Além dos problemas
crônicos da cidade, os sistemas de bombeamento de águas
pluviais do sistema Tietê não funcionaram em sua
totalidade.
Na imprensa o dilúvio paulista é
tema para vários tipos de matérias jornalísticas.
Ficamos sabendo, por exemplo, que o processo de ocupação
das várzeas já estava previsto nos planos de urbanização
da cidade, elaborados pela equipe do então prefeito Prestes
Maia (1938-1945). Baseados nestes projetos as áreas baixas
situadas às margens dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí
foram urbanizadas e loteadas. Aparentemente a coisa se tornou
muito rentável, tanto para as sucessivas administrações
públicas quanto para imobiliárias e construtoras,
já que a maior parte das várzeas foi aterrada e
os rios confinados a leitos de concreto. No local das antigas
baixadas vieram novos bairros, geralmente preparados para a população
mais pobre. Sobre os leitos dos rios canalizados foram construídas
avenidas. Resolviam-se assim vários problemas em uma tacada
só: a Prefeitura arrecadava taxas e impostos, as imobiliárias
e construtoras faziam negócios, a companhia de saneamento
escondia o fato de que uma parcela considerável dos esgotos
domésticos acabava correndo para os córregos e não
era tratada. Quanto aos córregos, estes não eram
necessários em uma cidade moderna, não tinham nenhuma
utilidade (além de, eventualmente, carregar o esgoto e
o lixo). Quantos administradores não pensavam desta maneira
entre as décadas de 40 e 70?
Mas a crescente impermeabilização
do solo – os jardins e quintais cimentados, as ruas, avenidas
e os estacionamentos asfaltados – impede a penetração
da água no solo. O único caminho para a chuva é
então a galeria de águas servidas, que vai desaguar
nos córregos, aqueles mesmos que foram concretados e limitados
ao menor espaço possível, e que acabam desaguando
nos rios Pinheiros, Tietê ou Tamanduateí. Mas, como
estes rios são pouco profundos e de vazão lenta,
a água fica retida nessa imensa bacia onde está
situada parte da cidade de São Paulo. Com isso, a metrópole
torna-se um imenso piscinão; cheio de lixo, mal-cheiroso
e barrento. Este é o retrato do que fizemos à natureza
– e à nossa cidade – nos últimos oitenta anos.
Iniciativas inovadoras, no entanto, já
aparecem. Alguns córregos na periferia da cidade não
estão mais sendo canalizados. Faz-se a limpeza do leito,
afastam-se os focos de esgoto e deixa-se o córrego correr.
Alguns especialistas falam até em “renaturalizar” os córregos
já canalizados, ou seja, remover as tubulações
e refazer o antigo leito. O próprio Prefeito ficou bastante
interessado no caso de Seul, na Coréia, que recuperou um
rio totalmente poluído que percorre o centro da cidade.
Mas, até que se encontre uma solução para
São Paulo e região ainda teremos muitas enchentes.
Quem viver, verá.