VIDA E MORTE DE GRANDES CIDADES

“As artérias viárias, junto com estacionamentos, postos de gasolina e drive-ins, são instrumentos de destruição urbana poderosos e persistentes. Para lhes dar lugar, ruas são destruídas e transformadas em espaços imprecisos, sem sentido e vazios para qualquer pessoa a pé.” A frase não é de nenhum planejador urbano, mas de uma escritora e ativista social americana do século XX, Jane Jacobs. Opositora das grandes intervenções no ambiente urbano, Jacobs publicou grande parte de suas idéias e críticas no livro “Vida e Morte de Grandes Cidades” (The death and life of great American cities), lançado em 1961. Uma das estratégias mais criticadas por Jacobs nas políticas de planejamento urbano da época – a escritora morava em Nova York – e copiados por cidades em vários lugares do mundo, era a abertura de grandes avenidas, cortando o espaço urbano e a vida urbana em pedaços. Atualmente, os arquitetos e planejadores reconhecem que a manutenção de áreas de convívio, a tranqüilidade dos bairros não interrompidos por grandes avenidas, são fatores importantes na harmonia das diversas regiões das cidades.

Duas grandes cidades, entre várias outras, tomaram ao longo dos últimos 50 anos este caminho criticado por Jacobs; São Paulo e Seul, capital da Coréia do Sul. A história recente das duas cidades é bastante parecida: tornando-se centros econômicos, receberam grandes contingentes de migrantes, e, sem planejamento, entraram em um processo de desestruturação urbana, tendo ambas atualmente ultrapassando a casa dos 10 milhões de habitantes. As sucessivas administrações tentaram diversas intervenções, geralmente mal sucedidas. Mas, nos últimos anos as duas cidades começaram a tomar rumos diferentes em seu desenvolvimento urbano.

Seul iniciou em 1999 um projeto bastante ambicioso, parte do qual já havia sido começada a partir de 1988, por ocasião dos Jogos Olímpicos. Uma seqüência de boas administrações conseguiu remodelar o centro da cidade, derrubando um viaduto de seis pistas, pelo qual circulavam diariamente 160 mil veículos – algo parecido com o paulistano Minhocão. As áreas urbanas centrais foram revitalizadas, incorporadoras construíram modernos edifícios e criaram-se 400 hectares de área verde ao longo de oito quilômetros de extensão. O mais importante do projeto foi a recuperação de um braço do rio Han, completamente poluído, que cortava a cidade, canalizado debaixo do viaduto. O rio foi completamente despoluído, margeado por estruturas em forma de escadas, que permitem um acesso à água agora limpa. O local tem servido de atração turística e de área de lazer, promovendo a socialização e recuperando parte da vida original urbana, tão valorizada por Jane Jacobs. Recentemente a Rede Globo apresentou reportagem televisiva sobre esta obra, que deve estar disponível na internet. Vale a pena assistir à reportagem.

São Paulo, todos sabemos, não tem muitas coisas boas para contar. As avenidas continuam cada vez mais entulhadas de carros, nosso metrô não passa de um trenzinho elétrico, de tão pequeno. No findar de uma tarde ensolarada, modernos prédios de apartamentos fazem frente à Avenida Marginal e ao poluído Rio Pinheiros... Será que a Copa Mundial de Futebol vai ajudar São Paulo, assim como as Olimpíadas ajudaram Seul?

Ricardo Rose
Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade
Leiter der Abteilung Umwelt und Nachhaltigkeit
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