A CARNE E A FLORESTA

Já é bastante conhecido o fato de que uma percentagem considerável do desmatamento da região amazônica é causada pelo avanço da pecuária. Entre 2007 e 2008 a grande imprensa e também esta coluna deram destaque ao fato, de que quase um terço da produção de carne brasileira é procedente da região, constituindo parcela considerável no volume da carne exportada pelo Brasil.

O processo ocorre em etapas. Primeiro uma área é identificada; depois é retirada toda a madeira de lei (da qual resta cada vez menos). O restante das árvores, depois de derrubado, é em grande parte exportado para os centros urbanos do Sudeste, onde abastece setores que ainda (infelizmente) se utilizam deste tipo de insumo. O que resta no solo é queimado, para que não ofereça obstáculo ao deslocamento do gado. Semanas depois, começa a brotar a vegetação, que será o alimento aos rebanhos. Como a área é bastante extensa, permite que os animais se desloquem, alimentando-se do que a terra oferece. Assim, são destruídas grandes áreas florestais, substituídas por cabeças de gado destinadas ao fornecimento de carne.
Esta atividade, se conduzida de maneira controlada e planejada, não representaria grande perigo para a floresta. Porém, nas condições em que é praticada, a pecuária acaba provocando a grilagem da terra, a invasão de reservas florestais e até de parques indígenas.

A organização não-governametal Mercado Ético (www.mercadoetico.terra.com.br) publicou recentemente matéria sobre esta atividade, que aos poucos vai se expandindo pela região amazônica. Neste artigo (“O consumo de carne e a degradação da floresta amazônica”) ressalta-se o impacto que a atividade pecuária tem na região. Também é apresentada uma entrevista com a representante da Agência de Impacto Ambiental da Holanda, Elke Stehfest, na qual esta ativista propõe a redução mundial no consumo da carne, como forma de reduzir a demanda do alimento – e, consequentemente da devastação que provoca. A medida, ela própria reconhece, poderia ser aceitável em países ricos, mas seria inviável em regiões onde ainda há grande falta de proteínas na alimentação da população.

Já existem diversos estudos sobre o impacto da pecuária sobre o meio ambiente amazônico e global. Um dos mais conhecidos é da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), cujo título “A grande sombra pecuária” (Livestock´s long shadow) já é bastante sugestivo. A atividade, quando realizada sem critérios socioambientais, destrói o ambiente local, além de provocar mais emissões atmosféricas, mudanças do regime das chuvas na América do Sul e degradação do solo amazônico, entre outras conseqüências.

Uma das causas do problema é o fato de que devido à falta de regularização, ainda é bastante baixo o custo da terra na região amazônica. Com a farta disponibilidade (legal ou ilegal) de terra, pratica-se a criação de gado não-confinado, o que além de tudo exige menos investimento. Esta técnica, todavia, deixa os animais sujeitos ao ataques de pragas e doenças, reduzindo sua massa corporal e aumentando a mortalidade. Com isso, são necessárias mais cabeças de gado no pasto, para produzir volume de carne equivalente ao de gado em confinamento. Consequentemente é preciso ocupar mais área de pasto, o que acaba aumentando o desflorestamento.

Ricardo Rose
Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade
Leiter der Abteilung Umwelt und Nachhaltigkeit
Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha
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