Amazônia
boliviana em fogo lento
Por Franz Chávez, da
IPS
La Paz, Bolívia, 27/8/2010
– O fogo arrasa sem piedade
extensas áreas da Amazônia
boliviana, enquanto o governo
reconhece incapacidade tanto
para combater os incêndios,
que já superam em quase
340 os registrados em 2009,
como para punir os responsáveis.
O endurecimento das sanções
está entre as opções
que o governo estuda, considerando
o aumento dos incêndios
provocados e castigados por
uma legislação
que não responde a esta
emergência, informou à
IPS o chefe de desmatamentos
da Autoridade de Fiscalização
e Controle Social de Florestas
e Terras (ABT), José
Luis Osinaga.
Embora os dados indiquem um
aumento no número de
focos de incêndios, de
1.972 em 2009 para 6.667 este
ano, o maior registro de incêndios
data de 2005, quando foram contabilizados
8.144, disse à IPS a
chefe da Unidade de Previsão
do Serviço Nacional de
Meteorologia e Hidrologia (Senamhi),
Marisol Portugal.
No ano passado, a ABT abriu
300 processos administrativos
contra supostos responsáveis
pela queima de florestas e também
foram organizados paineis de
informação, disse
José Luis ao ser consultado
sobre as tarefas de prevenção.
Nesta época do ano, os
agricultores praticam o “chaqueo”,
uma forma de preparar a terra
para a semeadura mediante a
queima de pastagens e mato,
que muitas vezes fica descontrolado
e é realizado em grandes
extensões.
O presidente da Bolívia,
Evo Morales, reconheceu a falta
de capacidade técnica
para combater incêndios
florestais e o desejo de adquirir
no curto prazo equipamentos
e aeronaves adequadas para enfrentar
esta emergência. É
provável que as punições
leves diante do enorme dano
ambiental gerado estimulem o
“chaqueo”, admitiu
José Luis. A regulamentação
diz que a multa por superfície
total queimada de um terreno
é de US$ 0,20. Esta forma
de definir a conduta contra
o meio ambiente leva a confusões,
segundo a autoridade.
Diante desse manejo inadequado
de queima de mato, surgiu uma
iniciativa parlamentar que tenta
frear, por meio de sanções
econômicas, os excessos
e o descuido dos agricultores
na hora de desmatar pelo método
tradicional. Até o momento,
continua em estudo o texto que
modificará a sanção
vigente.
As perdas não foram
quantificadas, mas só
o reflorestamento das áreas
devastadas pode exigir cerca
de US$ 200 milhões, segundo
estimativas do diretor-geral
de Gestão e Desenvolvimento
Florestal do vice-Ministério
do Meio Ambiente, Weimar Becerra.
Até o dia 24, 29 dos
38 aeroportos em sete departamentos
haviam suspendido operações
por falta de visibilidade em
uma distância mínima
de cinco mil metros.
As avaliações
via satélite da organização
não governamental Herencia
demonstram preocupação
por um “desastre de maior
grau” no município
de Ixiamas, norte do departamento
de La Paz, onde se estima que
a destruição atingiu
cerca de 90 mil hectares de
floresta. Na cidade de Cochabamba,
a 403 quilômetros de La
Paz, um incêndio voraz
destroi a natureza do Parque
Nacional Tunari, que fica em
uma montanha próxima
da zona urbana.
As autoridades regionais temem
que o fogo tenha começado
acidentalmente, embora não
seja descartada a possibilidade
de uma ação de
narcotraficantes que operavam
fábricas clandestinas
de droga.
A comunidade La Cachuela, do
município El Puente,
na província de Guarayos
do departamento de Santa Cruz,
foi declarada zona de desastre
após o incêndio
que destruiu 27 casas de famílias
indígenas, além
de floresta e plantação.
Com a declaração
de desastre, as autoridades
municipais esperam obter alimentos
e barracas do governo departamental,
e uma campanha de solidariedade
para reconstruir as casas.
Às margens do Rio Manuripi,
no município de Puerto
Rico, departamento de Pando,
1.200 hectares de floresta estão
em chamas há duas semanas,
segundo estimativas do diretor-executivo
da Herencia, Juan Fernando Reyes,
transmitidas à IPS. O
governador de Pando, Luis Flores,
informou que dez dos 15 municípios
da região sofrem queimadas
indiscriminadas, que poderiam
ser atribuídas a ações
de agricultores que buscam ganhar
espaços para plantar.
Em 2005, foram 15 focos de
incêndio e 50 mil hectares
afetados na Reserva Manuripi.
Presume-se que os caçadores
de tartaruga de rio (petas)
usam fogo para obrigá-las
a sair da floresta, disse Juan
Fernando. O coordenador de capacitação
da não governamental
Liga do Meio Ambiente (Lidema),
Edwin Alvarado, disse à
IPS que as causas dos incêndios
florestais podem ser várias,
incluindo a mudança climática,
já que deixa a vegetação
seca e causa escassez de água.
A zona florestal de Pando sofre
enormes danos, como a destruição
de castanheiras e outras espécies
florestais de valor econômico
como açaí (Euterpe
precatória), seringueira
(Hevea brasiliensis) e ubim
(Geonoma sp.), além da
morte de animais silvestres.
“Em um nível maior,
estas queimadas emitem grande
quantidade de gases, contribuindo
para o aquecimento global”,
disse Juan Fernando.
A extinção dos
incêndios florestais geralmente
chega com as chuvas da última
semana de agosto e começo
de setembro, mas este ano é
particular, porque não
haverá chuva e as frentes
frias serão secas, anunciou
Marisol. A fumaça também
dissipa com as chuvas da primavera,
mas tudo indica que o processo
será lento, podendo prolongar-se
até outubro, segundo
o Senamhi.
A densa fumaceira que cobre
grande parte da Amazônia,
e que chega até as regiões
ocidentais, contribui para elevar
a temperatura em até
dois graus centígrados.
Na Amazônia a média
é de 36 graus. Envolverde/IPS
(IPS/Envolverde)