CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL
"AVELINO PEIXE FILHO"

NOTICIAS DA SEMANA
Segunda feira 30/08/2010

Ceará entre os estados com maior risco de fogo

Além dos fatores naturais, há também queimadas provocadas de forma criminosa para renovar a pastagem

O Ceará está entre os estados do País com maior risco de incêndios florestais, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE). O órgão avalia como crítica a situação cearense. Apesar disso, só foram registrados 1.136 focos de incêndio desde janeiro até a presente data, número bem abaixo dos ocorridos no Mato Grosso, que teve 11.529 focos, Pará com 6.509 e Tocantins com 6.474 focos.

Nos últimos três anos o número de incêndios vinha diminuindo no Brasil. Em 2007 foram 202.299; em 2008, 134.864 e no ano passado 69.717. Em 2010, até aqui, foram contabilizados 41.636, mais que o dobro dos registrados no mesmo período de 2009. Somente neste mês de agosto já ocorreram 22.730 pontos de queimadas registrados no Brasil.

Isso ocorre porque o País está no período de maior risco de incêndios - os meses de agosto e setembro, que concentra cerca de 60% do total de incêndios ocorridos durante o ano.

No Ceará, segundo a tenente Sâmila Ribeiro, assessora de comunicação do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará, o Sertão Central e Centro Sul são as regiões que apresentam maiores riscos de fogo. Só neste mês de agosto foram 104 pequenas queimadas e incêndios florestais de grandes proporções no Estado (até o dia 22). "Ai contabilizamos incêndios em lixões e terrenos baldios. Nas florestas, o capim seco e o vento forte acabam piorando a situação", destaca.

Os municípios de Itapipoca, com 39 focos, Quixeramobim e Canindé, com 37 cada, Icapuí, com 32, Boa Viagem, com 30 e Trairi, com 22 focos, lideram os casos de queimadas detectadas pelo INPE no Ceará, neste ano. Sâmila observa que o combate nas regiões inóspitas são feitas ´em marcha´ mesmo e com auxilio de equipamentos.

Bomba

O clima seco na maior parte do Brasil nesta época do ano transforma florestas em verdadeiras ´bombas-relógio´. Na Região Centro-Oeste a umidade relativa do ar está em torno de 15% (quantidade de água existente no ar) comparável a regiões desérticas. No Ceará esse índice varia de 30 a 40% (o recomendável pela Organização Mundial de Saúde são 60%). As regiões Centro-Oeste e Norte do País, no momento, são as que se encontram em situações piores. Capitais como Rio Branco (AC), Porto Velho (RO) e Manaus (AM) estão sendo invadidas pela fumaça dos incêndios na floresta.

Além dos fatores naturais há também queimadas provocadas de forma criminosa para renovar a pastagem para o gado, fazer o manejo do recurso natural, queima de lixões ou os provocados por balões. Essas ações vem sendo investigadas pelo Instituto Chico Mendes.

O Ibama vem cumprindo seu papel. Nesta semana aplicou mais de R$ 4 milhões em multas por queimadas ilegais na Região Norte, mas mesmo assim não tem conseguido deter os atos criminosos.

A partir de outubro até janeiro, com o início das chuvas no Centro e Sul do Brasil, as queimadas migram para o Nordeste, que está com o ar mais seco e recebe maior incidência de sol. De janeiro a abril, as queimadas passam a atingir Roraima e o norte do Amazonas.

Atualmente, a situação é mais preocupante nos estados de Tocantins, leste de Mato Grosso, oeste da Bahia, algumas áreas do Piauí e de Minas Gerais, Rondônia e no sul do Pará.

Cerca de 10 mil pessoas estão envolvidas no trabalho de combate ao fogo, principalmente nas áreas de proteção ambiental. Sendo 3 mil dos institutos Chico Mendes e Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e 7 mil bombeiros de todo o País.

Além de perdas materiais há um claro prejuízo a saúde de milhares de brasileiros. Os incêndios produzem partículas muito pequenas, oriundas de material orgânico e de vegetação. Elas ficam suspensas no ar e, quando inaladas, causam irritação no aparelho respiratório e problemas de saúde.

Focos 2010

MATO GROSSO - 11.529
PARÁ - 6.509
TOCANTINS - 6.474
GOIÁS - 2.612
BAHIA - 2.555
MINAS GERAIS - 2.292
MARANHÃO - 1.809
SÃO PAULO - 1.459
PIAUÍ - 1.422
MATO G. DO SUL - 1.246
RONDÔNIA - 1.181
PARANÁ - 650
RORAIMA - 423
CEARÁ - 248
AMAZONAS - 242
RIO DE JANEIRO - 161
PERNAMBUCO - 130
ALAGOAS - 129
DISTRITO FEDERAL - 126
ESPÍRITO SANTO - 104

Fonte: INPE

CAPACITAÇÕES
Previna faz ações de combate em todo o Estado

O combate ao fogo no Ceará conta com a parceria do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente (Conpam), através do Programa Estadual de Prevenção, Monitoramento, Controle de Queimadas e Combate aos Incêndios Florestais (Previna) que realiza capacitações.

Até hoje, cinco brigadas cearenses foram formadas, com média de 30 soldados cada (guardas municipais e bombeiros). As cidades contempladas com o curso foram Juazeiro do Norte, Sobral, Tauá, Crateús e Acopiara. O Previna foi criado em 2004 pelo Governo do Estado visando uma gestão sustentável do meio ambiente estadual principalmente no que diz respeito à sua área agricultável com relação a utilização de queimadas antes do cultivo de terras.

A coordenadora estadual do Previna, Ana Cecy Pontes diz que esse trabalho vem sendo realizado através de uma parceria com vários órgãos que formam o Conpam.

"Nossa meta é atuar na prevenção do fogo, por isso estaremos em setembro capacitando técnicos da Ematerce e da Seagri. A Ematerce poderá ser uma grande aliada no trabalho de conscientização para evitar que se utilize as queimadas", diz.

´BROCA´
Queimadas causam a desertificação

O tradicionalismo, a ignorância e muitas vezes a comodidade de agricultores cearenses que utilizam as queimadas como mecanismo de preparação da terra para um novo plantio é uma das causas da desertificação crescente no Ceará. A constatação é da gerente do Núcleo de Cadastro e Extensão Florestal, da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), Gisa de Paula.

De acordo com a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), cerca de 15.130 km2 equivalentes a 10,2% da superfície total do Ceará estão associados a processos de degradação susceptíveis à desertificação.

Gisa de Paula, que é responsável pela autorização do uso do fogo controlado na agricultura, diz que há locais onde não são permitidas queimadas: terrenos pedregosos ou próximos a área de proteção permanente. "Indicamos saídas para que os agricultores não necessitem utilizar o fogo, pois apesar de ser um método tradicional não é o melhor. Na primeira vez que é utilizado até melhora o solo, mas depois o torna pobre. O uso do manejo florestal é a saída, pois possibilita que a vegetação se regenere", observa.

"Outros sistemas são a agropecuária e da agrofloresta, que exigem o manejo e garantem a produtividade", destaca Gisa, "as pessoas mais antigas entendem que se não fizeram a ´broca´ (queimada) acham que vão perder o ano", revela.

INTERIOR
Cultura prejudica fiscalização oficial

Segundo Gisa de Paula, os técnicos vem tendo muita dificuldades em convencer os agricultores para que mudem suas práticas, "É difícil quebrar esse paradigma e por isso a Semace está querendo fazer um trabalho preventivo, quanto a educação e ao meio ambiente, para eliminar a falta de consciência ambiental. Aqui no Ceará a cultura é queimar, desmatar. As pessoas não entendem porque tem que repor a vegetação. Isso demonstra falta de conscientização e de orientação mesmo", desabafa.

A gerente diz que, por outro lado, a acomodação e a burocracia também afastam os agricultores da obrigatoriedade de solicitar licença para a utilização de queimadas. "Ter que vir a Fortaleza, pagar uma taxa e ainda esperar que a Semace vá ao local verificar se a queimada pode ser feita. Para muitos não vale a pena. Como não há fiscalização intensa, muitos nem se preocupam com isso", frisa.

Segundo ela, esse problema está sendo resolvido com a contratação de mais fiscais que serão capacitados e brevemente estarão atuando para evitar o uso indiscriminado de queimadas no estado.

Gisa assevera que a maior parte dos incêndios ocorridos, principalmente nas áreas de Caatinga no Ceará, não são oriundos de combustão natural, como acontece no Cerrado, mas são provocados. "Fico triste com isso, como o próprio cearense coloca fogo na vegetação de sua terra?" indaga.

MARCELO RAULINO
REPÓRTER