[Somos
parte da Terra e ela é parte de nós]
Projeto Karinanga
Kaká Werá Jecupé. A terra dos mil povos.
Ed. Fudação Peirópolis.
“Os
olhos e as mentes intelectuais da humanidade
começaram no século XX a reconhecer os
povos nativos como culturas diferentes das
civilizações oficiais e vislumbraram
contribuições sociais e ambientais deixadas
pelos guerreiros que tiveram o sonho como
professores.
Mas a
maior contribuição que os povos da floresta
podem deixar ao homem branco é a prática de
ser uno com a natureza interna de si. A
Tradição do Sol, da Lua e a da Grande Mãe
ensinam que tudo se desdobra de uma fonte
única. , formando uma trama sagrada de
relações e inter-relações, de modo que tudo
se conecta a tudo. O pulsar de uma estrela
na noite é o mesmo do coração. Homens,
árvores, serras, rios e mares são um só
corpo, como ações interdependentes. Esse
conceito só pode ser compreendido através do
coração, ou seja, da natureza interna de
cada um. Quando o humano das cidades
petrificadas largarem as armas do intelecto,
essa contribuição será compreendida. Nesse
momento entraremos no Ciclo da Unicidade, a
Terra sem Males se manifestará no reino
humano. “ p.61
Os sinais do Espírito
A arte de ler os sinais
através do movimento dos pássaros,
dos ventos, dos rios, e do
fogo é para o povo indígena
a maneira pela qual a Mãe
Terra conversa com o ser humano.
1. Cada desenho que um
pássaro faz no céu em seu vôo é uma tarefa
que realiza de comum acordo com a Mãe
Terra.. Nenhum vôo é gratuito; nenhum pouso
é vão. Além dos pássaros que vemos há os
Pássaros raios e os Pássaros trovões. Estes
são Grandes Espíritos. O falcão, o
gavião-real, a águia e a pomba, sendo
pássaros superiores, todos os invernos vão à
morada dos Pássaros Trovões, e quando chega
a primavera dançam pelo céu a força e o
poder do Trovão, inspirando a Criação.
2.
Quando um destes pássaros surge à vista de
uma pessoa, ela está sendo solicitada a agir
com o poder do coração, morada do espírito
em cada ser. Se aparecer em sonho, o
próprio espírito está falando: eu sou sua
força.
3.O
beija-flor visita moradas de espíritos
relâmpagos. Quando é visto, inspira boas
idéias e diz que é hora de semeá-las. O
beija-flor foi a primeira forma que Namandu,
o Grande Mistério, assumiu para revelar-se.
4. A segunda forma que
Namandu assumiu, para refletir sobre a
criação dos Pássaros Trovões, foi a da
coruja, que durante o Nada da Noite,
empoleirou-se sobre si mesma e criou a
sabedoria.
5.
Quando as asas bateram, os ventos passaram a
existir como mensageiros:
Quando sopram do sul
: uma aventura inesperada, um rumo não
previsto na caminhada;
Quando sopram do oeste:
o que tem que morrer morrerá;
Quando sopram do norte:
a clareza da jornada com proteção dos
ancestrais
Quando sopram do leste:
a fortuna, o início
6. Todo rio traz mensagem de
prosperidade; toda cachoeira traz
abundância, renovação permanente, desde que
o espírito siga o rio, em seu exemplo e em
sua mensagem de fonte irradiante.
7. O
pássaro kuchio é bem aventurado. Seu canto,
no entanto, é um lamento. Sabendo que a
Terra ia ser inundada, lamentou-se em um
canto, e por compaixão Nosso Pai não deixou
o céu desabar.
8. Quando
a Terra e as leis da natureza cósmica e
terrena foram criadas, os anciães da sabedoria
fizeram uma roda e as narraram diante de
uma fogueira, de modo que todo fogo gravou
na memória todas as leis e o calor da sabedoria
dos anciães. Por isso, quando uma fogueira
se acender e um círculo de pessoas se unir
em torno do fogo, as leis serão aquecidas
novamente no coração humano.” p.98